São João na Estrada: veja tudo sobre a festa de Mucugê

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Grandes shows? Nem pensar. Nada de atrações famosas do forró, muito menos do sertanejo. As estrelas do São João de Mucugê são outras: montanhas, cachoeiras, casas enfeitadas, quadrilhas, o clima interiorano e friozinho, além dos canteiros floridos e sempre vivos. Terceira parada da série São João na Estrada, a cidade histórica da Chapada Diamantina é um dos destinos mais procurados para quem gosta de uma festa junina sossegada, bem distante da badalação.

É leitor de primeira viagem? Anota aí: há uma semana que a caravana do CORREIO saiu de Amargosa e passou por Cruz das Almas, até chegar em Mucugê. Convidamos você a embarcar nesse passeio que gira em torno do São João, uma das festas favoritas dos nordestinos e sempre presente na cobertura do jornal em seus 40 anos. Antes de dar a partida, lembramos que o trajeto passa, ainda, por Santo Antônio de Jesus (dia 12) e Senhor do Bonfim (dia 15), com ponto de encontro nas redes sociais (só marcar a hashtag #chegandojuntonointerior).

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Passadas as dicas, sigamos viagem. Pequena e aconchegante, Mucugê fica com seus casarões coloniais de portas abertas durante o São João para receber quem quiser entrar. Literalmente. “Lá é uma coisa bem do interior, consegue resgatar a tradição de ir na casa das pessoas, mesmo desconhecidas. A gente acaba indo na casa de um pra tomar um licor, na casa do outro pra comer um pedaço de bolo…”, conta o empresário Jânio Amilcar, 44 anos, que vai passar o São João em Mucugê pela oitava vez.

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Questionado se não cansa de repetir o roteiro, Jânio resume, rindo: “Quem vai pra lá uma vez se encanta e quer até comprar uma casa”. Por falar nisso, esse é um dos destaques do período, afinal as casas de Mucugê ficam todas enfeitadas no São João e disputam o título de mais bonita da cidade, com direito a concurso. “Fica parecendo um teatro. Tem decoração temática, quadrilhas, trança fitas, procissão… É uma coisa bem lúdica”, resume Jânio, sobre o São João típico que tem até casamento na roça.

Tradição
Por isso, o empresário estará de malas prontas para sair de Salvador no dia 19 e pegar 480 km de estrada com a família até Mucugê. O objetivo é não perder a novena que começa dia 15 e vai até dia 23. Quem conhece, já sabe: no período, moradores e visitantes são acordados por fogos de artifício todos os dias, às 6h, sinal que faz o convite para acompanhar a procissão pelas ruas do Centro Histórico.

Enquanto a Filarmônica 23 de Dezembro puxa o cortejo, a imagem de São João é levada até a Igreja Matriz, onde acontece uma missa para este que é o santo padroeiro de Mucugê. A programação inclui uma parada na Escola Rodrigues Lima, onde é servido um cardápio inusitado com farofa, chocolate quente, café, licor. À tarde, quem entra em cena são as quadrilhas e a trança fitas, famosa coreografia da cidade criada por Marcos George Paraguassu e que este ano homenageia o rock dos anos 1960.

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“No ano passado, vi muito turista comentando sobre a tradição do São João, dizendo ‘não acredito que isso ainda existe’, e isso me arrepiou. A festa modernizou demais em outros lugares, mas aqui a gente não deixa. Uma fatia da população quer ver atrações ‘modernas’, mas a prefeitura bota a faca nos dentes e fala que vai fazer o São João tradicional mesmo”, destaca o secretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente de Mucugê, Euvaldo Ribeiro, 44.

Além da valorização da memória e da história, Euvaldo destaca que a tradição junina movimenta a economia de Mucugê que, no ano passado, investiu cerca de R$ 500 mil no São João e teve retorno de mais de R$ 5 milhões. “É uma forma da prefeitura gerar emprego,  renda e aquecer a economia”, garante o secretário. Este ano, o investimento foi parecido, mas o retorno esperado é maior, já que “o mercado está mais ativo”.

Um exemplo disso é que a rede hoteleira está 100% ocupada há pelo menos seis meses, o que faz com que municípios vizinhos como Andaraí, Igatu e Ibicoara recebam o “excedente” de turistas. “Estamos com uma fila de espera que daria para encher outro hotel igualzinho”, revela a administradora Ângela Pina, 63, sócia-fundadora do Hotel Alpina, que tem 20 anos de funcionamento e está com seus 32 quartos ocupados. “A procura aumentou este ano, porque tem o feriado, então facilitou a vinda das pessoas”, justifica.

Claro que o feriadão facilita, mas Ângela acredita que a cultura local é a principal responsável por atrair famílias inteiras. “Mucugê manteve a tradição do São João que tem pé de serra, quadrilha, casamento na roça, casas que capricham na decoração… Então, isso atrai o público”, defende. “Tem uma família que vem todo ano e já reservou dez quartos. O sucesso vem por justamente honrar a cultura e a tradição”, acredita.

Sempre viva
Os atrativos de Mucugê, porém, não param por aí. A cidade teve seu conjunto arquitetônico e paisagístico tombado como patrimônio nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A força histórica, unida a trilhas e passeios, faz da cidade um destino único. E o fotógrafo Gel Novaes, 47, só percebeu a potência disso aos poucos.

Nascido e criado em Mucugê, Gel começou a fotografar por hobby, com o objetivo de mostrar a riqueza natural da cidade para quem era de fora. “Rapaz, que lugar bonito, me leva lá?”, era o que escutava e, com boa vontade, levava quem pedisse. “Quanto custa o passeio? Nada não”, respondia Gel, até perceber uma possível profissão. Foi assim que investiu em um curso de guia turístico e de combate ao incêndio florestal.

Fotógrafo e guia, chegou a coordenar o Projeto Sempre Viva, criado para preservar a flor típica da região que está ameaçada de extinção. “Em todo o mundo, só existe em Mucugê”, conta, orgulhoso, sobre a flor sempre-viva que é conhecida por durar anos, o que fez com que fosse exportada para o Japão e países dos Estados Unidos por um preço que chegava a US$ 500.

“No Museu da Cidade, tem um buquê de sempre-viva que tem 60 anos, por isso o valor comercial que tinha na época”, explica Gel, sobre a flor que hoje não pode ser comercializada por causa do risco que corre de extinção. Além de conhecer o projeto, o turista que vai para Mucugê também pode visitar trilhas com cachoeiras, além da histórica cidade de pedra que fica em Igatu.

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“Além de dançar o forró, você vem para uma cidade aconchegante, que chega a nove graus, tem violência zero e bons passeios. A Chapada como um todo é muito bonita. Quem vem pra cá, vê cachoeiras como o Poço Encantado, o Poço Azul e pode curtir a natureza. O pessoal vem em busca disso, de paz. A cidade grande é muito corrida”, convida Gel.

*A série São João na Estrada integra o projeto Correio 40 anos, que tem oferecimento do Bradesco, patrocínio do Hapvida e Sotero Ambiental, apoio institucional da Prefeitura de Salvador, apoio de Vinci Airports, Senai, Salvador Shopping, Unijorge, Claro, Sebrae, Itaipava Arena Fonte Nova e Santa Casa da Bahia.

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  • Como Chegar

Partindo de Salvador, é possível seguir três caminhos de carro para Mucugê, em uma viagem que dura cerca de 6 horas e 50
minutos: via BR-324; via BR-116 e BA-245; e via BR-242. Para quem vai de ônibus, há apenas uma empresa que realiza o trecho, a Cidade Sol. Os horários de partida da capital baiana são sempre às 8h e às 20h25.

  • Santo Antônio

Nos dias 15 e 16, os festejos de Santo Antônio fazem uma prévia em Guiné, distrito de Mucugê (40 km do Centro). Dia 15, às 21h: shows de Edi Rossi, Cheiro de Milho, Binho do Acordeon e Kasaka de Couro. Dia 16, às 18h: Chamego da Chapada, Papazoni, Targino Gondim e Forrozão
das Antigas.

  • São João na Praça

Com a programação gratuita composta por 90% de atrações de forró pé de serra e sanfoneiros, o São João de Mucugê reúne shows, concurso de quadrilhas e a tradiconal Trança Fitas Rodrigues Lima, entre os dias 20 e 24 de junho. No dia 21, quem se apresenta é o forrozeiro Genival Lacerda, ao lado do filho João Lacerda, no show São João Pai e Filho.

  • Passeios

1  Poço Encantado, Poço Azul e Olhos D’Água

2  Projeto Sempre Viva

3  Cachoeira da Fumacinha

4  Cemitério Bizantino

5  Igatu

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